Fábrica da Queima e Queima do Judas

Em, 1985 a ACERT “recebe” de um grupo de cidadãos de Tondela a passagem de testemunho para a realização da queima do Judas, tradição antiga da comunidade. A constante reinvenção de um modelo de celebração permitiu ao longo da história ir transformando aquilo que era uma celebração pagã associada à chegada da primavera e ao início de um novo ciclo de produção agrária num exorcismo dos males personificados pelo Judas cristão (traidor, encarnação do mal). Quando tomou o encargo dessa celebração, a Queima do Judas era a queima de um boneco feito de palha e trapos velhos, à porta da Igreja Matriz de Tondela, no Sábado de aleluia à saída da missa, por volta das 23.00h.

A ACERT transformou-o num julgamento popular de uma figura monumental simbolizando todos os males ocorridos desde o ano anterior.

“(…) adaptada a um acontecimento teatral e musical, a Queima do Judas … passou a ser um marco de integração não só na comunidade, mas de integração da comunidade nos espectáculos” conforme estudo de Claúdia Monteiro Pato de Carvalho Coimbra: FE-UC 20carlos teles04.

A Queima do Judas tem hoje um formato, a que foi associada a “Fábrica da Queima”, ou seja uma semana de trabalho e formação intensiva em áreas tão diversas como a música, construção cenográfica, movimento, interpretação e figurinos.

Mantendo o julgamento, o Judas é acusado, e condenado por crimes cometidos no ano transacto, a nível local, nacional e internacional. O texto é construído coletivamente recolhendo aquilo que as pessoas identificam como os crimes, desmandos ou atropelos cometidos sobre a comunidade, correspondendo a cada acusação um quadro teatral. Estes quadros teatrais são construídos com uma linguagem satírica, humorística e cáustica muito do agrado do público que assiste ao espetáculo.

A “Fábrica” abre no Domingo anterior à Páscoa e dura até ao Sábado seguinte, dia da apresentação do espetáculo, funcionando das 9.30h às 23.00h. Neste espaço de tempo todo é construído por cerca de 200 voluntários de Tondela e de outras regiões do país na sua maioria jovens entre os 14 e os 20 anos, mas também um considerável número de trabalhadores, menos jovens, que participam somente nos ensaios da noite. Este período de tempo é-lhes sempre salvaguardado permitindo que também se integrem na atividade com orientação dos formadores (elementos da equipa da ACERT). Formam-se grupos que têm a seu cargo, uns, a música, outros, a cenografia, outros representam os quadros das acusações, outros dão apoio técnico, outros fazem os figurinos.

A música criada e ensaiada, os movimentos do grupjoão simõeso criados e os atores com o texto criado e ensaiado para apresentar ao público no final, ou seja 7 dias depois, temos um boneco (o Judas) com cerca de 8 metros de altura construído em papel, vimes e canas. O boneco tem sempre duas faces: uma primeira quando do decurso das acusações e que é habitualmente uma figura bonita, inspiradora. Quando da sentença e decisão de que “os males foram tantos que temos que o queimar” o Judas mostra a sua face para arder e aqui é normalmente uma figura demoníaca meio bicho, meio homem.

No sábado, por volta das 23.30h, este ano em Nandufe, no Campo de Jogos, as pessoas juntaram-se para assistir a um ritual de festa e celebração da comunidade, construído pela própria comunidade. Foi um espetáculo grandioso, de teatro, música, som e luz, e que este ano começou com um momento único entre um bailarino (Romulus Neagu, responsável pela formação na área do movimento e coreografias) e Fran Pérez (coordenador musical) e que mostrou como um espetáculo de rua em que o público espera as grandes coreografias e fogo e luz também pode conter momentos de intimidade intensa entre dois dos criadores. O espetáculo culminou com a queima em fogo preso da gigantesca figura que simboliza as maldades do mundo.

A Queima do Judas é um moqueimajudas14_acert_dia6_8_josecruziomento único em Tondela, e no país. É um momento em que uma comunidade se une para construir um objeto artístico. Essa comunidade que por vezes é acusada de não participar (principalmente os jovens) dá uma demonstração de vitalidade.

É também uma demonstração da vitalidade da ACERT e da sua capacidade de envolver os mais diferentes parceiros nesta realização, este ano com especial destaque paras as Associações de Nandufe.

 Fotos: Fotoraf; João Simões e José Cruzio

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